Rick foi uma das raras vozes negras a chegar ao topo do sertanejo


A morte de Rick, da dupla com Renner, encerra a trajetória de um dos artistas negros que conseguiram conquistar um espaço de destaque no sertanejo brasileiro. Encontrado morto nesta terça-feira (22), após o acidente de helicóptero em Santa Catarina, o cantor deixa uma história que vai muito além dos grandes sucessos que ajudou a transformar em clássicos do gênero.

Em um estilo historicamente marcado pela presença majoritária de artistas brancos, Rick ocupou um espaço raro. Ao lado de Renner, construiu uma carreira de décadas, alcançou o grande público e ajudou a mostrar que a música sertaneja também poderia ter entre seus protagonistas uma voz negra.

E essa trajetória não aconteceu sem enfrentar o racismo.

Em entrevista ao jornalista André Piunti, Rick contou que passou por situações de preconceito ao longo da carreira. Em um dos episódios relatados pelo cantor, uma fã teria se recusado a tirar uma foto com ele por não gostar de pessoas negras. Renner, ao perceber a situação, decidiu não realizar a foto.

O próprio Rick também falou sobre como o preconceito fazia parte da realidade enfrentada por artistas negros dentro do mercado sertanejo.

A história de Rick se conecta ainda a outros nomes negros importantes da música sertaneja, como João Paulo, da dupla com Daniel, e Pena Branca & Xavantinho. São trajetórias que ajudam a lembrar que a presença negra sempre existiu no gênero, embora tenha ocupado um espaço muito menor do que sua importância histórica e cultural poderia sugerir.

O RACISMO TAMBÉM MARCOU A HISTÓRIA DO SERTANEJO

O debate sobre a presença negra no sertanejo não começou com Rick. João Paulo, que formou uma das duplas de maior sucesso dos anos 1990 ao lado de Daniel, também enfrentou episódios de preconceito durante a carreira.

A trajetória desses artistas expõe uma contradição importante: enquanto a música sertaneja absorveu diferentes influências ao longo de sua formação, os grandes espaços da indústria e da mídia nem sempre refletiram essa diversidade.

Por isso, a história de Rick precisa ser lembrada também por esse aspecto. Ele não foi apenas um cantor negro dentro do sertanejo. Foi um artista que chegou ao topo de um mercado no qual poucos artistas negros tiveram a mesma oportunidade de protagonismo.

UMA VOZ QUE ABRIU CAMINHO

Rick e Renner começaram a construir a carreira em Brasília ainda nos anos 1980 e ganharam projeção nacional na década seguinte. Hits como “Ela é Demais” e “Nos Bares da Cidade” ajudaram a consolidar a dupla entre os grandes nomes do sertanejo brasileiro.

Rick faria 60 anos em dezembro. Sua morte deixa não apenas a saudade de uma voz conhecida por milhões de brasileiros, mas também a oportunidade de olhar para a história do sertanejo e reconhecer aqueles que precisaram enfrentar barreiras adicionais para ocupar um lugar que deveria estar aberto a todos.

A trajetória de Rick permanece como parte dessa história.

E, em um momento de despedida, lembrar que ele foi uma das raras vozes negras a alcançar o estrelato no sertanejo também é uma forma de reconhecer a importância de sua existência, de sua carreira e do espaço que ajudou a abrir para quem veio depois.